de 2006

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Coluna do Joly

 


O humor de Chespirito está em extinção

Chaves ainda tem lugar em comédias onde as pessoas chocam para fazer rir?

 

Sempre que vou a palestras, eventos ou em qualquer outro ambiente onde o assunto é Chaves - e, acredite, esse assunto sempre aparece, de um jeito ou de outro -, as perguntas são mais ou menos as mesmas: quais as razões para o sucesso de Chaves? Qual seu episódio preferido? Quem morreu? Quem não morreu? Kiko brigou com Chaves? E a Chiquinha? Confesso que algumas respostas já estão absolutamente decoradas e elaboradas ao requinte máximo, tamanho o número de vezes que já as usei.

 

Outro dia, porém, me vi em uma discussão diferente e interessante. A pauta em questão ocorreu durante uma palestra na sede do Doutores da Alegria, em São Paulo. O tema não eram os programas de Bolaños, mas o quarteto brasileiro Os Trapalhões, tema de outro livro meu. Claro, o “Doutores da Alegria” é especialista na cultura do palhaço e, na TV, os Trapalhões foram os maiores – e os últimos. Mas, como sempre acontece, um tema puxa o outro, e quando vi, estava falando também de Chaves. E os dois assuntos deram origem a um mote maior, o humor de forma geral. E a pergunta que me faziam era: o humor de hoje em dia ainda dá espaço para programas como Chaves?

 

Confesso que me questionei muito se ainda há lugar para o ingênuo, o simples mas bem feito, o primário, o direto e inocente. Por muitas vezes considerei uma resposta negativa, mas um fator básico fez com que eu acreditasse que sim, ainda podemos ter um humor de qualidade, porém ingênuo, na televisão. E a resposta foi me dada pelo próprio Chaves.

 

Afinal, se o programa mexicano segue no ar até hoje, mesmo com tantas reprises, é porque há quem os assista. Portanto, gostam do humor que é retratado ali. E, claro, não me refiro aos mais velhos, como este mesmo que vos escreve (e já viu cada episódio dezenas de vezes), mas sim às crianças, que assistem saborosamente cada episódio que vai ao ar diariamente no SBT.

 

Os tempos mudaram muito desde o distante ano de 1971, quando Chaves ainda era uma fresca novidade. Mais informação é produzida nessa década do que em todo o século retrasado. O ser humano produz e consome informação com uma rapidez impressionante. Websites, blogs, fóruns, celulares, jornais, TV e outras mídias nos bombardeiam com notícias o tempo todo, sem ao menos nos perguntar se nós queremos saber tanto.

 

Qual o espaço reservado pra Chaves na paranóia louca em que vivemos? Fato: o humor criado hoje em dia precisa ousar demais. Programas como Pânico ou CQC, muitas vezes, exageram na medida. São invasivos, indiscretos, dissimulados e chocam para fazer rir. Chaves continua lá, indefeso. São os mesmos episódios, que jamais irão mudar não importa o quão avançada esteja a tecnologia.

 

Pessoalmente, acho lamentável que o ser humano tenha “evoluído” tanto – uma evolução um tanto bestial, agressiva e sarcástica ao limite. A barreira ética é freqüentemente rompida no humor global (me refiro ao mundo, e não à Globo) de hoje em dia.

 

Mas, quando vejo crianças em frente a TV assistindo ao intacto Chaves nosso de cada dia, tenho esperança de que esses futuros adultos saberão selecionar melhor do quê e de quem rirão.

 


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