de 2006

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Coluna "Limpando a vila"

 


Chaves vira desenho animado e já é sucesso

Fenômeno de massa do século 20 – na América Latina, ao menos -, Chaves acaba de estrear em mais uma plataforma. Depois de já ter sido tema para jogo de videogame, álbum de figurinhas, livros e até óculos, ele agora ataca na forma de desenho animado.

 

A nova série Chavo del Ocho trata-se de um projeto antigo de Roberto Gómez Bolaños (o Chaves, ou Chespirito, como é conhecido por lá). É liderada pelo seu filho, Roberto Gómez Fernández. Há algum tempo Bolaños, hoje com 77 anos, já vislumbrava a possibilidade de animar suas histórias. O desenho, totalmente produzido no México, teve estréia no final de outubro em vários países da América Latina, e em muitos deles, já é sucesso. Na Colômbia, onde estreou no dia 22 de outubro, o desenho levou o canal RCN à liderança no horário; Na Argentina, foi o quarto programa mais visto do dia, enquanto no Equador, atualmente é a série mais vista do país.

 

No México, a ansiedade foi ainda maior. Chaves, que ainda é exibido em seu formato “tradicional”, é o grande símbolo de humor mexicano nas últimas décadas. Começou a ser produzido em 1971 – um ano depois de Chapolin- e durou até 1995. A primeira temporada dos desenhos da trupe mexicana será composta de 26 episódios, com meia hora cada um. As histórias, em sua maioria, giram em torno dos enredos originais, porém, com algumas particularidades próprias de desenhos (veja quadro abaixo).

 

A expectativa por parte da Televisa, emissora que exibe as séries de Chespirito, em todas as suas variáveis, é enorme. Já se fala em começar a produção de um novo pacote de episódios. A exportação também anda a todo vapor. Além da América Latina, a Televisa pretende difundir a série na Espanha e mercado hispânico nos Estados Unidos. Por aqui, Silvio Santos foi rápido e já adquiriu os direitos de exibição para o SBT. A previsão era que debutasse em dezembro, mas acabou entrando somente no começo do ano.

 

Não é a primeira vez que o Homem do Baú tenta emplacar com um Chaves inédito; em 2001, colocou no ar o Clube do Chaves – nome dado pelo SBT -, cheio de esperanças, mas que ficaram no ar. O quadro foi um fracasso e saiu do ar poucos meses depois. A razão, segundo alguns, estaria na própria produção – filmada no fim dos anos 80, traz os atores mais velhos e um novo cenário, mais limpo e moderno. A mudança repentina não agradou os brasileiros, que ainda preferem a desgastada reprise de todo dia.

 

Crítica

 

Inocência Perdida

 

Assisti a um dos episódios de estréia do novo desenho – ainda em espanhol. A trama é bastante conhecida do público, e traz o garoto Chaves sofrendo de insônia. As diferenças entre o desenho e a série são muitas, mas nota-se também a fidelidade dos produtores atuais com a série original – o figurino permanece exatamente o mesmo, além de frases e trejeitos. Os esteriótipos, no entanto, ressaltados. Assim, Chaves fica ainda mais baixo, Seu Madruga, com imensas olheiras, é magérrimo, enquanto Kiko abusa das bochechas. Os traços lembram desenhos modernos, com movimentos dinâmicos, semelhantes a de obras como A Vaca e o Frango. O cenário de fundo, em 3D, dá o tom de futurismo à série – quem diria?

 

A história em questão prende-se bastante à original, inclusive com o mesmo fim. Logo, as mudanças maiores ficam justamente por conta da nova arte. Por ser um desenho, o céu é o limite em termos de imaginação. Na pratica, isso significa que podemos, enfim, “ver” o que antes era impossível. Exemplo? Quando Chaves retrata um trecho da história A Bela Adormecida, Kiko imagina a cena – e nós podemos ver como ela seria, em detalhes, sem necessidade dos famosos “efeitos” especiais. Já as bofetadas em Seu Madruga, por exemplo, lembram o mangá japonês – repleta de muita ação e expectativas.

 

A vila também pode ser exibida de novos ângulos, jamais filmados antes. Em geral, as possibilidades de exploração são muito maiores, mas fica claro que ele jamais substituirá o original. Faltou humanizar o desenho – o mais difícil em qualquer obra animada. A série também ganhou traços infantis demais – mas isso, talvez, seja culpa do repórter que escreveu esta crítica, e por vezes esquece que já não é mais uma criança.

 

Mas ainda não é esse o principal problema deste desenho animado. Os traços perfeitos dos personagens, que não apresentam rugas, as roupas limpas, mesmo quando amarrotadas, e a vila, com uma sujeira artificial, passam a imagem de perfeição e limpeza, algo que não pertence ao mundo de Chaves que conhecemos. Chaves sempre nos remeteu ao remendo, ao tosco, ao pobre. Com desenhos tão nítidos e brilhantes, nesse ponto fica um pouco difícil se acostumar com o novo formato.

 

Tradição | Se de um lado o desenho animado de Chaves traz diversas novidades, algumas tradições fiéis às séries de Bolaños foram mantidas. A primeira delas, os remakes – reaproveitar velhas histórias. Episódios que já foram regravados com os atores por 3 ou mais vezes, são agora mais uma vez reaproveitadas no formato animado. Ao que parece, muito pouco de novo será criado em terras mexicanas.

 

Outro fator sempre presente quando falamos de Chaves são as brigas no elenco – poucas, mas intensas. E até no desenho elas apareceram. Desta vez, sobrou para Maria Antonieta de Las Nieves, a Chiquinha. A atriz, que já não vinha tendo um bom relacionamento com Chespirito, queria os direitos sobre a Chiquinha, e Bolaños não aceitou – diz-se o criador de todos os personagens. O mesmo já havia acontecido com Carlos Villagrán, o Kiko, mas ao menos ele está no desenho normalmente. Com Las Nieves, não teve acordo, e Chiquinha, como na vida real, ficou de fora (na série original, ela saiu de Chaves por 2 anos na década de 70).

 

O QUE VOCÊ SÓ VÊ NO DESENHO DE CHAVES

 

- Encontro impossíveis, como Seu Madruga e Kiko contracenando com Jaiminho, o Carteiro

- Novos ângulos da vila, imagens aéreas

- Crianças realmente menores que os adultos

- A imaginação dos personagens correndo solta

- Imagens externas nunca vistas, como casas vizinhas ao portão da vila e até da venda da esquina

- Uma nova chance de “ver” Kiko na série, algo que não acontece desde Acapulco

 


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